Parte I
(Talvez um dia, sentados a beira do rio, deslumbrados com a beleza dos tentáculos dourados do por do sol estendidos preguiçosamente desde o infinito do mar até aos nossos pés, eu te diga todas as palavras que nunca te disse e te conte todas as histórias que nunca ousei contar.
Talvez nesse dia eu tenha a sensação, com a tua mão entrelaçada na minha, de que milhões de anos ou de vidas já se passaram e que nós procuramo-nos repetidamente a mesma hora, no mesmo lugar, ao por do sol, para meditar em silêncio e procurar palavras e frases que ficarão eternamente para serem ditas)…
Escrevi para ti essas palavras um dia….hoje procuro escrever outras, da mesma forma, com o mesmo jeito e intensidade, olhando o quadro inerte, o pintor há muito se foi, só ficou a ideia da vida e do sonho impossível na mistura de cores teatrais umas vezes verde revelando a força e a esperança da natureza, outras vezes branco como a paz do teu sorriso, outras vezes ainda vermelho de sangue e vida como a tua alegria e finalmente negro como a escuridão, medonha e odiada mas também amada pelo luar e por todos os seus mistérios…
Não há que enganar…alguém o pintou porque eu vejo-o permanentemente, mudam as perspectivas e os centros de luz, alteram-se os reflexos e os espelhos, revertem-se as cores e as ideias mas tu continuas lá inerte ou com vida, que importa? …. Tu, a ilha, o rio, o mar e os deuses. Alguém me disse algures que o quadro na verdade foi pintado por um poeta apaixonado, que resolveu dessa forma eternizar a sua amada porque os seus versos, carentes de sentido e oportunidade, continuam vadios a procura-la desesperadamente, qual feitiço colocado eternamente na sua cruz, em todas as dimensões da vida, nos bares, no álcool e na boca e sexo de todas as mulheres do universo.
Tu, a ilha, o rio, o mar e os Deuses… e o poeta invisível para todo o mundo, sentado ao teu lado as eternas palavras fervilhando:
Tantas vezes penso em ti, no que poderia ter sido e não foi, em tudo o que ficou por dizer, em todos os abraços que não demos, em todos os beijos que adiamos…
O rio continua ali, bem perto, a espera que a gente o encontre…o tempo parou no momento exacto em que entrelaçavas os teus dedos nos meus, encostavas a tua cabeça no meu ombro e ambos olhávamos as aguas correrem, uma vezes para o mar, outras para o reencontro com os Deuses. Mas tu, de repente abandonaste os meus dedos, rejeitaste o meu ombro e eu continuo a procura de ti na fusão dialéctica do espaço e do tempo, entre o dourado da noite e o som de piano que a brisa arranca das flores, entre o sorriso sádico do piloto do supersónico anunciando a morte e o grito cortante do orgasmo rompendo o silêncio da noite anunciando vida nova, entre a minha inocência absoluta e a variável tempo, ela sim, culpada a milhões de anos por todos os nossos desencontros e por todos os nossos momentos, para além desta vida e da outra, ao pôr-do-sol, o nossos olhos dentro de nós e as nossas bocas prendendo as palavras que teimosamente atravessam desertos sem fim, no limiar da sede e da liberdade. Eu afinal não sou a causa! Sou também efeito das leis que gravitam ao redor da mentira que cultivamos século sobre século...
Os teus olhos deixaram de jorrar mel, teu sorriso amargou, as tuas palavras secaram, o teu espaço em mim, arrancaste-o como se eu, culpado de insónias tormentosas e pesadelos solitários, tivesse a condenação ali, pronta, ao teu lado, o teu dedo acusando-me e eu, apenas ansiando por ele entre os meus, procurando as águas do rio e o conforto do teu abraço…
Olho mais uma vez o quadro….Vejo que se fez noite e que o poeta invisível embrulha as minhas palavras e deposita-as em ti. Depois mergulha pelo rio adentro, seguindo as águas para lá do mar, mais longe que os deuses, a procura de ti sereia, meu amor impossível….
DC